Exercício Físico: Lição de vida do Sr. Y

Autonomia do idoso: entenda sua importância e como promover – Blog | Longevitat

Chamei para a triagem o Sr. Y, de 82 anos, que recorreu à urgência após uma queda.  Para qualquer enfermeiro que faz triagem, quando chega um paciente que vem por queda, alguns preconceitos afloram logo à mente:

Se for uma criança: Muito provavelmente não tem nada! Caem e choram muito ou pouco dependendo de quem está a ver, levantam-se com um galo na cabeça, um arranhão no joelho, mas está tudo bem.  Alguns pais mais extremosos vêm a correr à urgência, e ainda na sala de espera, antes de ser chamada para a  triagem, lá está a criança aos pulos! E os pais preocupados para que ela não adormeça, porque sabe-se lá o que pode ter acontecido à moleirinha e vá que nunca mais acorde…

Os adolescentes: Esses não vêm à urgência! A não ser que sejam arrastados porque apresentam uma deformação evidente e não dá para esconder a fratura…

Jovens da minha idade: Depois da queda, já não é como as crianças, já demora a passar! Mas vêm à urgência só porque não souberam esperar mais um pouco em casa, cumprindo as velhinhas mas eficazes indicações RICE:
Rest: Repouso;
Ice: Gelo;
Compression: Compressão;
Elevation: Elevar;
Ou então, não raramente, vêm à procura de uma baixa médica para não ir trabalhar !!!

Agora, quando vamos triar um ancião de 82 anos, com história de queda, alguns cenários surgem como os mais prováveis! Culpa dos ossos fracos da idade, da habitual inatividade, agravado por um perímetro abdominal cultivado e aumentado durante largos anos, fazem desta faixa etária alvos profícuos para: 
– Fratura do colo do fémur, muito comum na queda dos idosos;
– Fratura de Colles, fratura do punho por causa da queda com apoio da mão;
– Fratura de vértebras nas quedas para trás;
– Fratura da grelha costal, quando o impacto é torácico;
– E claro, as habituais feridas inciso contusas frontais ou occipitais “tipo estrela”, desafiantes para suturar, e tantas vezes com brinde, entenda-se, hematoma intracerebral, causada da vulgar hipo-coagulação provocada pelos medicamentos receitados para as ptologias cardio-vasculares típicas desta idade.


O Sr. Y, atende à chamada para a trigaem pelo seu próprio pé, portanto podem diminuir a vossa expectativa em encontrar uma destas vulgares fraturas neste espécime.

Depois de saber o motivo da vinda, pergunto: “Sr. Y, que doenças é que tem”?Claro que, aos 82 anos, após esta pergunta, coloco o dedo indicador direito na tecla “h”, esperando a habitual hipertensão arterial, como a primeira de uma lista interminável de doenças, que não raras vezes, é maior do que a minha lista de compras semanal!

Estava eu pronto a disparar a primeira doença e a resposta foi: “nenhuma”.

Quem é triador sabe muito bem, que embora eles digam que não têm doenças, quando perguntamos se ‘tomam algum medicamento todos os dias’, eles vão dizer: “Ah sim, tomo medicamentos para a tensão, para os diabetes, para o colesterol, para o ácido úrico, para a depressão, para a ansiedade, para dormir, para acordar, para fazer xixi, etc, etc…  acho que já entenderam a ideia.

Faço então a pergunta xeque-mate: “Sr. Y, que medicamentos é que toma todos os dias?”
Volto a colocar o dedo indicador na tecla “h”, confiante que terei que a pressionar e oiço a resposta: “Não tomo nenhum”.
Ora bem, esfreguem bem os olhos e pensem comigo: tem à vossa frente um jovem de 82 anos, que diz que não têm doenças e não toma medicamentos, conhecem algum desta colheita?!
Contemplando novamente o Sr. Y e o registo da sua idade, surge-me outra ideia na cabeça: Provavelmente estou perante um parente do conhecido tio alemão Alzheimer, e sem saber estou a ter uma conversa numa realidade alternativa! No entanto, a filha que o acompanhava, também com alguma idade, nada dizia, nem aponta nenhum erro ao discurso do progenitor!

Então pensei, para mim… bom, isto só pode ser uma coisa e arrisco a pergunta: “Sr. Y, qual é o exercício físico que você faz?”.
Quase consegui ver um sorriso, por debaixo da maldita máscara que o COVID nos vestiu… e a resposta foi: “Todos! Ainda há 2 anos jogava futebol 5 com os amigos!” 
Esfreguem lá outra vez os olhos! Confesso que fiquei deliciado com o Sr. Y!
Mas não me consigo imaginar a jogar futebol com um senhor de 80 anos… acho que tinha medo de, sem querer, dar-lhe um leve toque, que o fizesse voar e aterrar no chão, e no mínimo partir o fémur, o punho, as vértebras, as costelas e a cabeça… 

Não resisti a fazer outra pergunta, muito importante para anamnese da triagem: “Sr. Y, e com quantos amigos da sua idade você jogava à bola?”
Já estava a imaginar uma turma sui generis a correr atrás de uma bola, alguns com bengalas e a coxear, como se fosse um jogo em câmara lenta (eu sei, a imaginação estava ao rubro!).
Outro sorriso, debaixo da maldita máscara…. (acho que já desdenhei da máscara ainda há pouco) e respondeu: “Jogava com uns miúdos de 20 e 30 anos!”.

Apeteceu-me fazer uma festa em honra ao Sr. Y! Pelo seu exemplo de vida, e por ser uma prova viva que o exercício é o elixir da juventude, que diminui todas as causas de doenças, é um ótimo antidepressivo, dá-nos resistência física e psíquica, melhor a função cardio-vascular, e…. pronto, está bem, vou controlar-me e parar de falar dos infinitos benefícios do exercício físico, hoje ficamos apenas pelo exemplo do Sr. Y que quero destacar, e que fala mais do que qualquer discurso a favor do exercício físico.

Apenas lhe disse: “Sr. Y, tenho exatamente metade da sua idade, também sou um apaixonado pelo exercício físico, e também eu espero quando chegar à sua idade, continuar a dizer: “não tenho doenças e não tomo medicamentos, obrigado pelo seu exemplo inspirador que, se me permite, vou partilhar”!

E com esta ideia inspiradora e profunda vos deixo: Mexam-se pá!!! 
Deixem-se dessa desculpa do “não tenho tempo”, porque para o que queremos, damos sempre um “jeito”, mas para o que não queremos arranjamos sempre um “pretexto”. E se o pretexto for a idade, metam os olhos no Sr. Y!

Termino com a ressalva, não precisa de ser futebol 5! Todos os exercícios são bons: resta-nos fazer o que gostamos mais, ou o que detestamos menos, mas façam, pela vossa saúde… 

Ah, quase me ia esquecendo: o Sr. Y não tinha nenhuma fratura, porque o exercício, também fortaleçe aos ossos 🙂

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