Reflexão sobre APP Teste de Depressão

No final do ano 2020, lancei uma nova APP na Play Store, chamada Teste de Depressão.
Consiste num inquérito de 21 perguntas em que ao responder, o utilizador será informado se está ou não com depressão e, se estiver, classifica-a em leve, moderada ou severa, conforme ilustro  nos emojis abaixo.

Sem
Depressão

Depressão
Ligeira

Depressão Moderada

Depressão
Severa

Confesso que a princípio, não achei que “fosse dar em nada”, mas a verdade é que mais de um ano, depois já conta com +10.000 instalações.
Mas o motivo da minha partilha, não é tanto o número surpreendente de instalações, mas o feedback dos utilizadores! Sem que seja pedido ou exigido, para além de fazerem o teste, os utilizadores regressam à Play Store para dar a sua opinião, agradecem, dão 5 estrelas e principalmente deixam o seu comentário pessoal

 “A APP está muito boa, fiz o teste e tenho uma depressão severa, tenho 10 anos”!
“Tenho medo de contar aos meus pais, eles não vão entender, sinto-me deprimido, tenho 9 anos”
“Choro o dia todo às escondidas, passo os dias ao telemóvel para me tentar distrair, não sei o que fazer”.
“O meu teste deu depressão severa! Já faz tempo que eu me sinto deprimida…”
“Muito bom este app. O ruim é que eu tenho uma depressão severa.”
“O app é realmente muito bom e muito fácil de usar. Estou um pouco mal porque fui diagnosticado com depressão severa aos 11 anos”

E por aí vai, já são quase uma centena de comentários, e posso dizer que mais de 80% são de adolescentes (talvez mais, mas não consigo precisar) e todos eles dizem que foram “diagnosticados” pela APP com depressão severa, e com comentários do género destes que enumerei acima.

Ainda fiz um teste à APP a ver se por algum erro no código, estaria a dar depressão severa a todos, mas descobri que não! Para ter este resultado, o utilizador efetivamente respondeu afirmativamente a perguntas como: “Não tenho qualquer esperança no futuro”, “Sinto que sou um falhado”, “Não tenho prazer em nada”, “Odeio-me”, “Perdi o interesse pelas pessoas”. 
Tentei responder a todos os comentários, com mensagens motivacionais e rapidamente fiz uma alteração à APP: Na última tela, lancei uma série de conselhos sobre como prevenir / tratar uma depressão e aconselhei os utilizadores deprimidos a ler e aplicar essas sugestões.

Mas isto incomodou-me: Afinal, porque é que tantos adolescentes e pré-adolescentes estão deprimidos? Será possível? É verdade que a adolescência é uma fase complicada, mas o que é que se passa com esta geração?
Trago-vos algumas das minhas reflexões sobre esta problemática:

1) Há mais de um ano que estamos a viver uma pandemia, onde temos de ter distanciamento social, ensino à distância, não vemos familiares e amigos! Sabemos que o adolescente se descobre a si mesmo comparando-se com o outro e interagindo com o outro, ora isso foi-lhes roubado, ou talvez melhor, substituído, por um outro online que publica apenas a sua vida de avatar nas redes sociais, que nada tem a ver com a sua realidade. Publica-se o que se quer sentir e não o que sente, onde somos heróis e felizes em todas as nossas demandas.

2) As rotinas diárias das crianças em casa foram alteradas! Começaram a ter vários hábitos errados no estilo de vida, que lhes estão a retirar a alegria de viver sem perceberem: deitam-se tarde e deitar depois das 22 horas é prejudicial, porque inibe a subida dos níveis de melatonina, a hormona que começa a subir após o pôr do sol, e nos prepara para uma boa noite de descanso.  Ao resistirmos em ir para a cama, estamos a lutar contra o fisiológico e não conseguiremos obter os benefícios de uma boa noite de sono reparador, tanto físico como emocional. Dormir é muito importante para estarmos bem dispostos e de bom humor durante o dia.

3) Falta de exercício físico: As crianças deixaram de ir à escola, deixaram de fazer educação física, deixaram de fazer exercício físico! Já escrevi alguns artigos a falar na importância do exercício físico e como ele é um antidepressivo natural, melhora a autoestima, o conhecimento de nós próprios e o nosso autoconceito, para além da produção de hormonas do prazer e bem estar.

4) Podia falar-vos também, de que em casa, em confinamento, temos uma alimentação tendenciosamente errada. Como não estamos ocupados com o trabalho ou com a escola, passamos mais vezes pela cozinha e vamos fazendo diversos snacks! Estar sempre a comer, e muitas vezes comidas com elevado nível de açúcar, leva ao que vários estudos já provaram:  flutuações dos níveis de açúcar que mexem com o nosso estado de espírito e emoções, e nos deixam mais irritados/deprimidos.

5) Por fim, mas talvez o mais importante: O telemóvel! Não me surpreende que a maior parte dos utilizadores sejam crianças, pois são elas que passam horas a fio à frente dos écrans… Para os pais é um descanso, estão entretidas e não chateiam, nem se mexem, estão quietas fazendo sabe-se lá o quê.
Ora os écrans, os telemóveis, são férteis em hiper estímulos, ou seja, o nosso cérebro agora com o telemóvel é estimulado a um ritmo nunca antes visto. O nosso cérebro, é coercivamente curioso, está sempre à procura de novas informações e o telemóvel satisfaz essa curiosidade a uma velocidade vertiginosa e por isso é tão indutor de dopamina. Sempre novas informações, sejam elas relevantes ou apenas lixo! Lá vamos nós ver o que há de novo no tiktok, no insta, no face, no youtube, no mail, nas notícias…. etc… etc… Estar sempre a estimular o nosso cérebro tem as suas consequências: retira-nos a capacidade de introspeção, de pensamentos profundos, as angústias são substituídas por mais um post, por mais um lixo digital que esteja a rolar por aí.

Penso que é esta mixórdia de fatores que torna as crianças de hoje em dia, deprimidas e sem vontade de fazer nada para além do écran, sempre aborrecidas quando não têm o telemóvel nas mãos, irritadas, intolerantes às frustrações!  Já para não falar no problema de se compararem com os outros, ou melhor, da forma como os outros se apresentam nas redes sociais, que corresponde mais a um “avatar” que criaram, do que com a realidade, mas que mexe com a realidade dos outros e dos próprios.

Enfim, não sei bem, onde esta “geração covid” nos vai levar, mas parece-me que está a caminhar para uma geração desadaptada da realidade, incapaz de lidar com o quotidiano, frustrados e deprimidos, sem norte e sem objetivos…

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