Se não está partido, porquê que doí?

Depois da radiografia, ao saberem que não têm fractura, aí vem a pergunta: “Então se não está partido, porquê que doi?” 

Na verdade, a radiografia só mostra se existe fractura ou não, e de grosso modo, em urgência é o que importa saber, pois determina a necessidade de imobilização e/ou cirurgia.
Bom, mas então “porquê que doi?”
Vejamos, como exemplo, esta imagem de uma perna:

Para além do osso, que nesta imagem está por debaixo de todas as outras estruturas, temos: tendões, músculos, artérias, veias e nervos.  Todos estas estruturas, também ‘têm direito’ a sofrerem com os traumatismos e os entorses que lhes infligimos!

Claro que, o doente procura sempre um diagnóstico “bonito” e não o satisfaz saber que não tem nada, senão, porque é que doí?

Cabe ao profissionais de saúde, sendo mais ou menos esclarecedor, orientar e satisfazer a curiosidade do traumatizado.

Fica sempre bem dizer que tem uma contusão muscular. Contusão é apenas um nome bonito para dizer “pancada”, assim como as pubalgias dos jogadores de futebol, é apenas um nome bonito para referir-se às dores na região púbica, muito sacrificada nos arranques e mudanças de posição.

E se não está partido, o que é que se faz? Pancadas e entorses, os chamados “dóis-dóis”, tratam-se todos da mesma maneira, como nos indica a mnemónica inglesa RICE. 

Escrevi sobre isso no aplicativo SOS Febre e Dor:

(R)EST – O membro/zona traumatizada precisa de estar em repouso. Por exemplo: Após um entorse do tornozelo, não esperem que a dor passe apenas com o medicamento! É preciso parar de fazer carga sobre o tornozelo! É preciso de repouso!

(I)CE – O gelo é um dos melhores anti-inflamatórios locais, pode aplicar várias vezes por dia, principalmente nos dois primeiros dias.

(C)OMPRESSION – Uma ligadura, ou uma contenção elástica, poderá ajudar a reduzir, tanto o edema, como a dor, melhorando a mobilidade.

(E)LEVATION – A elevação é importante. Por exemplo: Se entalar o dedo da mão, deve suspender a mão com uma ligadura ou lenço ao pescoço. A mão deve ficar ligeiramente mais alta que o cotovelo. 

‘Ok, isso é a maioria, mas se o meu caso for diferente?’, ‘Se eu for dos 1% dos casos que precisam de mais qualquer coisa?’. Sim, nos outros é sempre mais fácil falar, mas nós achamos que somos especiais, e que o nosso caso é sempre mais grave que todos (quem faz triagem numa urgência percebe o que estou a falar…) 

Por exemplo: Estava a jogar futebol e sentiu um esticão na perna que fez com que caísse para o chão, perdeu o controlo da perna (não apenas uma dor que limita), então poderá ter feito uma rotura do tendão de aquiles, e isso sim, não é fratura, mas precisa de cirurgia.

Um outro exemplo, de um ‘dói-doí’ difícil de curar são os traumatismos na grelha costal. Quer a costela ‘parta’ ou não, neste local não é possível colocar gesso e também não é possível parar de respirar. Ora então, não conseguimos cumprir a primeira regra do Rice, que é o repouso. Por isso, vai doer durante muito tempo, se tiver tosse, ainda vai experimentar uma dor tipo facada, e por vezes as dores são mais intensas uma semana depois do traumatismo. São daquelas que têm “pilhas duracel”, e duram e duram, muitas vezes mais de um mês, mesmo a tomar medicamentos para a dor. 

Para todos os dóis-dóis, para além do RICE, é preciso introduzir mais 2 “medicamentos”, que para quem me conhece, não é novidade 🙂 Uns poderão ter que tomar uma dose maior do que outros, dependendo da tolerância de cada um. É o medicamento tempo e a paciência! Dois “fármacos” potentes e necessário para curar quase tudo e em especial as contusões.

Agora, se já passou uma semana, você até cumpriu o RICE direitinho, mas continua com a dor como  no início, tem o ‘direito’ de ir em busca de um diagnóstico para além da ‘contusão’! Pode  fazer uma ecografia ou um TAC, e aí vai descobrir que tem  por exemplo, uma distensão muscular, uma rotura r ou uma tendinite. Embora, agora com o diagnóstico, o tratamento, provavelmente, será uma dose maior de RICE, de tempo e de paciência

Boa sorte com o seu “dói-dói”…

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